Mar de Palavras

– narrações de histórias com Penélope Martins e Joel Costa Mar –

A arte de contar histórias, por Clara Haddad

em 24 de outubro de 2013

Uma conversa sobre livros e oralidade, um pé no Brasil e um pé em Portugal, café com bolinhos: pronto! Penélope Martins convidou Clara Haddad a contar um pouco sobre a arte de encantar com histórias. Clara aceitou e preparou para nosso Mar de Palavras o texto abaixo.

Boa Viagem!

“A narrativa faz parte da nossa vida desde a mais tenra idade! O primeiro contato de uma criança com um texto pode acontecer muito antes do que os adultos imaginam e a maioria das vezes, é realizado oralmente, quando o pai, a mãe, os avós ou outra pessoa conta-lhe os mais diversos tipos de histórias.

Mas de onde surgem as histórias? Talvez a resposta mais sensível seja do coração dos homens. Tem-se notícia que as primeiras narrativas constituíam-se de relatos sobre a possível história do surgimento do mundo.

Hoje narramos histórias de diferentes formas e com diferentes objetivos e agregamos habilidades que possuímos em função do que queremos e como queremos contar.

Engana-se quem pensa que só as crianças precisam ouvir! Todos precisam ouvir histórias, e não importa a idade! Os contos são um meio simbólico onde podemos abordar todos os tipos de temas, até mesmo os “considerados difíceis”, como perda, fome, medo, abandono violência, morte…. Porque os contos,  sobretudo, os contos de fadas, tem em sua base camadas do inconsciente coletivo, sentimentos comuns a toda a humanidade.

As dúvidas de muitos professores e pais quando frequentam as minhas oficinas e cursos são: Que história contar? Pode-se contar uma mesma história para diferentes faixas etárias? Todos vão compreender? Qual a duração ideal de uma história? A partir de que idade a criança está preparada para ouvir histórias?

Muitas pessoas acreditam que a criança que não sabe ler não se interessa por livros, portanto não precisa ter contato com eles. O que se percebe é bem ao contrário.

É importante ouvir histórias, é importante ler histórias e para ler é preciso que o livro seja tocado, folheado, de forma que os mais pequeninos tenham um contato mais íntimo com o objeto do seu interesse. Com este estímulo, eles começam a gostar dos livros e a perceber que eles fazem parte de um mundo fascinante, onde a fantasia apresenta-se  das mais diversas maneiras: sons, palavras e desenhos.

De 2 a 3 anos os bebês estão mais adaptados ao meio físico e aumentam sua capacidade e encanto pela comunicação verbal. Como interessam- se também por atividades lúdicas, o “brincar” com o livro será importante e significativo para eles.

Para as crianças a partir dos 3 a 6 anos, os livros adequados e indicados são os que propõem, humor, expectativa, mistério, histórias de animais, fábulas, contos de repetição ou acumulativas, histórias de fadas de enredo simples.

Dos 7 a 8 anos as crianças já estão com o pensamento mais desenvolvido. Interessam-se pelo conhecimento de toda a natureza, aventuras em ambiente próximo: família e comunidade. Histórias de fadas com enredo mais elaborado, com muito humor e situações inesperadas ou satíricas. O realismo e o imaginário também agradam a estes leitores.

A criança-leitora, a partir dos 10 anos é atraída por histórias que apresentem narrativas fantásticas, de viagens, explorações, invenções, fábulas, mitos, lendas vividas por heróis ou heroínas que lutam por um ideal. Identificam-se com textos que apresentam jovens em busca de espaço no meio em que vivem, seja no grupo, equipe, comunidade, entre outros. É adequado oferecer a esse tipo de leitor histórias com linguagem mais elaborada.

De fato, da oralidade surge a necessidade da escrita. É preciso entender que a oralidade não despreza a escrita, mas uma forma enriquece a outra, portanto a leitura deve seguir o sentido tanto mais plural possível.

O conto popular é carregado de informações históricas, etnográficas, sociais… É a vida documentada: costumes, mentalidades, decisões, julgamentos.

A história é como o ser humano, tem uma estrutura, um músculo, um coração e respiração e alma. Precisa ser trabalhada de forma a ganhar vida e para que isso aconteça, é preciso buscar histórias que nos despertem a sensibilidade e emoção, de forma que possamos conta-las e transmiti-las aos ouvintes.

Num mundo tão cheio de tecnologias em que se vive, onde todas as informações ou notícias, músicas, jogos, filmes, podem ser trocados por e-mails, CD’s e DVS’s, Ipad, e-Books o lugar do livro em papel parece ter sido esquecido. Há muitos que pensem que o livro é coisa do passado, que na era da Internet, ele não tem muito sentido.

Não podemos desconsiderar  a relevância das novas tecnologias no atual contexto social e educativo da nossa sociedade globalizada. Nem podemos fechar os olhos ou ignorar  as transformações e os avanços tecnológicos.

Sou da opinião, que o livro em formato tradicional permanecerá contribuindo para o desenvolvimento do indivíduo. Quem conhece a importância da literatura e da oralidade na vida de uma pessoa, quem sabe o poder que tem uma história bem contada, quem sabe os benefícios que uma simples história pode proporcionar, com certeza haverá de dizer que não há tecnologia no mundo que substitua o prazer de ouvir e o prazer de tocar as páginas de um livro  e encontrar nelas um mundo repleto de encantamento. Se quem conta, partilha uma história, acreditar que além de informar, instruir ou ensinar, o livro , seja ele em que formato for, pode dar prazer, encontrará meios de mostrar isso à criança.

Independente da forma, do método o importante é criar hábitos de acesso à leitura. Ler não deve ser apenas uma habilidade ou forma de adquirir conhecimento pois o ato de leitura deve ser ampliado no sentido de remeter o indivíduo para múltiplos significados. Lemos o “mundo”,  lemos “ a vida”, as entrelinhas, as imagens, os sons, os gestos…

Trabalhar com a literatura é precisamente tocar no universo de representação, mundo simbólico, do poético e do sagrado. Quanto mais a criança , o jovem for provocado na sua capacidade de ser e sentir, mais probabilidade ela terá de ser um adulto feliz e transformador.

Colaborar para que alguém desenrole o novelo da vida e teça seu próprio caminho é assumir diante da existência uma postura comprometida com a evolução afetiva e intelectual da espécie humana é dignificar a existência. Desejo a todos, boas histórias de vida e literárias!”

 Clara Haddad

Clara é narradora, atriz e produtora cultural radicada em Portugal desde 2005. Especialista em narração oral e diretora da Escola de Narração Itinerante, projeto pioneiro iniciado na cidade do Porto em Portugal e que possui delegação no Brasil. Há 14 anos dedica-se a este ofício e já dinamizou workshops e espetáculos em vários países como: Portugal, Brasil, Bélgica, México, Peru, Venezuela, França e Espanha. Conheça mais:  www.escolanarracao.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: